Lá do fundo dos (re)arquivos

Sempre nesse exercício (algo maníaco, reconheço) de construir pontes entre buscas presentes e a história compartilhada por nossas redes, hoje estava aqui tentando lembrar de um momento interessante que voltou a ecoar há pouco. E encontrei o arquivo.

Pra contextualizar, estou no momento repassando e sistematizando uma série de entrevistas que fiz nos últimos meses a respeito da reutilização de objetos e materiais obsoletos, quebrados ou indesejados por qualquer outro motivo. Eu não sou um observador distante desses assuntos, e nem recente. Ainda assim, mergulhar em centenas de páginas de transcrições é cansativo. Para equilibrar, tenho feito também algumas brincadeiras mais experimentais. Nada muito sério ou sistemático - na verdade, no começo da quarentena comecei a guardar embalagens e caixas, e às vezes envolvo minha filha de nove e meu filho de cinco anos na tentativa de construir algo com essas coisas, usando uma tesoura e cola quente.

Isso tudo trouxe novamente à tona uma conversa com o Thiago Novaes, em 2007. Naquela época a gente estava organizando o Ciclo Gambiarra, uma série de atividades para discutir “a apropriação tecnológica, improviso, aprendizados, gambiarra e bricolagem”. Novaes trouxe para um dos Diálogos na Casinha a referência de Gilbert de Simondon, e a conversa se expandiu pra muitos lados. Na ocasião estávamos na Casinha, na Vila Madalena (São Paulo) em três pessoas: eu, Novaes e Alexandre Freire. Mas estávamos também transmitindo um stream de áudio e com uma sala de chat aberta via IRC. Uma transcrição não revisada da transmissão e o log das salas de chat estão no fim desta página, mas no momento quero chamar a atenção para este trecho da conversa:

ff queria aqui… apropriacao, desapropriacao, reapropriacao

9s re, re, re, re, re… lugar de poder, né? quando se fala em reciclagem já vem a idéia do lixo, porque a gente vai tentar reutilizar.

ff acho que reciclagem é um termo que a gente nao usaria hoje, com toda essa estrada… acho que reciclagem tem a coisa de voltar pro ciclo, voltar pro mesmo processo. que na real é uma coisa que… remanufatura é outra coisa, que re-significar é outra coisa. a história de reciclagem tem um significado bastante definido, é o aluminio, que vai pro fim do processo produtivo e volta pro começo, reaproveita e volta pra mesma coisa. e tem a historia de propor a idéia de apropriação.

ale entao, apropriacao nao é justamente essa apropriacao cultural, que no fundo seria uma apropriacao linguistica? que a unica apropriacao que existe mesmo é a cultural.

9s o que eu discordei da história é o “re”, de reapropriaçao. é como se os objetos técnicos, estivessem dados, como se nao fosse possivel nunca usar uma caneta pra rebobinar uma fita cassete. quando se fala em re-significar, seria isso, num certo sentido: dar um novo significado pra caneta na relacao com a fita cassete. entao isso talvez fosse resignificar. agora na hora de apropriar, o próprio, a gente tava até falando aí do despossuido. no reapropriar parece que tá dado, toda essa existencia tá dada. e aí fica um lugar de poder que a gente tá sempre respondendo. a perspectiva de ataque não é ficar respondendo, nao ficar no re-re-re. é pegar e afirmar as paradas. nao porque nao tem que responder. tem que responder quando as coisas estao colocadas. ai tem que negar. mas no caso do digital, da tecnica e da cultura, ha um espaco muito maior para a cultura apropriar-se disso tudo e afirmar as coisas. nao negar a tecnologia, mas pelo contrario, afirmar a tecnica como humana, e com isso apropriar-se. e nao reapropriar. reapropriar é isso, quase reutilizar. a fabrica de computadores do min do planejamento tem essa funcao, que é reutilizar. é acesso, e tal.
o apropriar é isso, é entender que a técnica é apropriada, ela é cultura. eu fico brigando com a historia do poder, coloca sempre um locus de poder que tem que responder, nao criar.

E um pouco mais tarde:

9s fazer só o paralelo, lembrando de metareciclagem, pensar a reciclagem. essa coisa do… parece que tá falando só de técnica, mas quando fala de técnica também tá falando da natureza. técnica e cultura nao têm separacao assim como a natureza tambem nao tem separacao da cultura. e por isso voltar na questao da reciclagem, pra nao tratar como lixo, como uma coisa… que a reciclagem amarra essas duas paradas, a ecológica, dentro da natureza, colocar a natureza numa lógica humana; e ao mesmo tempo a técnica também, a reciclagem de computadores… a questao da reciclagem não é trabalhar com o lixo, é trabalhar com o humano, é resgatar o humano, tudo aquilo que a gente joga fora. que não é material. a gente joga fora as relacoes humanas, as relacoes de trabalho, entendeu? isso que a gente joga fora. quando vai na reciclagem, resgata relacoes de trabalho, relacoes humanas.

ff e nem so simbolicamente

9s nao é simbólico, é prático!

ff jogar alguma coisa no lixo tá jogando todo o conhecimento embarcado no lixo, desperdicio

9s conhecimento, trabalho, humano

9s daí pensar reciclagem sob essa ótica, e tirar essa coisa do lixo, do…

ale reciclagem computadores e

9s quando ele perde a utilidade ele deixa de existir, ele morre. onde é o cemitério da parada? é onde ele agride o humano, metais pesados, mal armazenado. além de ser descartado, ele continua nocivo. mais nocivo ainda, mal armazenado. tem a dimensao ecologica, a dimensao ecosofica. Simondon escreveu especificamente sobre reciclagem, mas eu ainda nao tive acesso a esse texto.

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