Centro de Educação e Pesquisa em Inovação Socioambiental

Ancorando aqui um conjunto de ideias e desejos que flutuam à minha volta há algum tempo. Muito do que escrevo nesse post são coisas sobre as quais eu já falei em outros cantos, mas acho importante reafirmar algumas delas, uma vez que pretendo convidar mais gente para entrar nessa conversa. Se você chegou aqui agora, te convido a ler e participar clicando em “Responder”. Sim, o site precisa de cadastro. Mas é fácil, rápido e seguro. Vamos conversar?

Estou fora do Brasil pelos próximos anos, mas mantenho o coração conectado e os olhos voltados para o que acontece na minha terra. Antes de vir para a Escócia, eu morei por onze anos em Ubatuba. Um dia quero voltar para dar consequência ao tipo de coisas que começamos a construir por lá. Aqui vai uma espécie de mapa para meu caminho de volta.

Ubatuba

Ubatuba fica na costa, mais ou menos no meio do caminho entre Rio e São Paulo - exatamente no ponto onde o Trópico de Capricórnio beija o Oceano Atlântico. E vive um grande dilema. É, como muita gente sabe, um paraíso natural - com uma grande proporção de áreas preservadas em unidades de conservação, populações tradicionais resistindo e se reinventando apesar de tudo, e muitas pessoas criativas e bem intencionadas que chegam em busca de qualidade de vida, de uma outra relação com a terra e com as pessoas.

É sempre bom relembrar que a Mata Atlântica que compõe mais de 3/4 do território de Ubatuba já foi derrubada em quase toda a sua cobertura original no restante do país. Fala-se em mais de 90% de desmatamento. A cidade, assim, deveria ser vista como um exemplo de preservação. Mas tem o outro lado. As dezenas de praias e cachoeiras atraem um veraneio predatório e em grande medida antitético à preservação da natureza, à reinvenção dos modos de vida tradicionais, e ao desenvolvimento de formas mais apropriadas de relação entre pessoas e o planeta. De fato, partes das elites locais identificam a existência das unidades de conservação e das comunidades tradicionais como empecilhos para o que acreditam que deveria ser o caminho para desenvolvimento econômico da cidade. A saber: turismo de massa com resorts e cruzeiros; exploração em grande escala de pesca, agricultura e até mineração, e se possível algum braço industrial como apêndice da produção de petróleo das cidades vizinhas.

Nada disso é novidade, claro. Eu mesmo cansei de ouvir e contar essas histórias, desde meus primeiros anos em Ubatuba, mais tarde organizando o primeiro Festival Tropixel, construindo a bela parceria que foi o projeto Ciência Aberta Ubatuba e tantas outras iniciativas em diversas escalas. Pra quem quiser saber um pouco mais, recomendo esse vídeo sobre o projeto de ciência aberta:

Nessas iniciativas, a gente sempre se deparava com uma situação delicada. Praticamente todas as condições que possibilitam as potencialidades de Ubatuba são frágeis e estão sob permanente ameaça. Para reverter isso, é necessário trabalhar para que a sociedade reconheça a importância da preservação, das culturas da terra e da busca de reconexão. Mas além disso, é necessário também encontrar maneiras de viabilizar o desenvolvimento e o crescimento desses campos. Na época chegamos até a construir de forma colaborativa um projeto de lei para constituir um Sistema Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação, que trazia inúmeras possibilidades de estruturação e financiamento. Mas o projeto morreu na praia (com o perdão do trocadilho) ao fim de um mandato da gestão municipal, e nunca mais voltou a ser discutido de maneira séria.

Inovação Socioecológica

Ao fim do Ciência Aberta Ubatuba, alguns de nós nos permitíamos sonhar com os possíveis formatos para uma incubadora de projetos que dialogasse com alguns desses mundos e possibilitasse às pessoas se conhecerem, trabalharem juntas e eventualmente encontrarem maneiras de desenvolver seus projetos. Fizemos cerca de dez encontros da inc.ubalab nessa toada.

O cenário, entretanto, estava mudando mais rápido do que podíamos acompanhar. O golpe em Brasília e o neoconservadorismo cada vez mais explícito no Governo do Estado (não esqueçamos nunca que Ricardo Salles, hoje Ministro Anti Meio Ambiente, fez antes estágio como Secretário Estadual da mesma pasta), e a união de ocasião entre uma classe média manobrada e os antigos donos do poder reverberaram de maneira profunda. Naquele ponto, deixou de ser aceitável pelas autoridades que estivéssemos, por exemplo, propondo um conselho participativo de ciência e inovação que tinha assento garantido para representantes de comunidades tradicionais. Todo pensamento progressista já estava sendo criminalizado, e nesse sentido a própria ideia de participação social foi simplesmente descartada.

Somando-se a isso tudo o fato de que o financiamento para a ciência e a cultura foram severamente cortados nos anos seguintes, o resultado concreto foi que muitos de nós tivemos que nos voltar a sobreviver e pagar as próprias contas. Eu fiquei um tempo desempregado, com dívidas crescendo, e em algum momento passei a trabalhar para uma empresa estrangeira, sem nenhuma relação com os projetos a que havia me dedicado por quase uma década. Meu tempo de dedicação diminuía.

Ainda assim, a gente sonha. Circulando no contexto dos projetos da chamada “inovação cidadã”, eu me propus a dialogar com o que parecia fazer sentido no meu entorno imediato. Tinha um desconforto com a partícula “cidadã” daquela construção, por diversos motivos - entre eles a própria ideia de “cidadania”, e uma conexão pouco visível com a “cidade”, que supõe muitas coisas. Também, obviamente, me incomodava a palavra “inovação”, tão vazia de significado. Eu tratei de propor algo em um texto sobre inovação socioecológica, uma combinação também instável e assumidamente imperfeita. Se a inc.ubalab buscava articular pessoas e iniciativas em Ubatuba, talvez com alguma boa vontade a gente pudesse usar essa expressão para facilitar a articulação.

Educação

No meio dessa pandemia da COVID-19 cujos efeitos sobre o mundo a gente ainda nem começou a entender, em algum ponto eu tropecei novamente no Tropixel e comecei a experimentar. Buscava reconectar pessoas que haviam participado do Tropixel, mas logo esse universo inicial expandiu-se para outros momentos e movimentos também. Um grupo do Telegram que acabou sendo chamado Tropixel Café, uma série de encontros online sem pauta aos sábados sob o nome #boteco Tropixel, depois este site, e um não-festival - #nos - que ainda não sei se ou como vai “ser”.

Em algum ponto dessa experiência eu decidi republicar o site com os registros das edições do Tropixel que aconteceram em Ubatuba entre 2013 e 2015. E ali encontrei algumas coisas interessantes, entre elas os cinco programas de rádio que fizemos durante o festival em 2013. E é curioso perceber como a gente já naquela época falava sobre educação como uma das chaves para ajudar a mudar o ciclo de fragilidades que ameaça permanentemente o lado inspirador de Ubatuba.

Aquela intenção nunca sairia de pauta. Grande parte dos projetos com os quais eu estive envolvido nos anos seguintes tinha parceria ou uma grande interação com escolas públicas e particulares, institutos de pesquisa, profissionais da educação e das ciências. Nem vou listar todos esses projetos, mas houve tempo em que eu até comecei a desenhar o que queria chamar de Prisma - programa inovação, sociedade e meio ambiente. A intenção era antever um futuro no qual houvesse uma organização em Ubatuba atuando com ensino e pesquisa nesses campos. Ele não chegou a virar um projeto consolidado, entre outros motivos porque já estávamos vivendo as múltiplas crises de que falei acima. Mas a ideia de aproveitar todo o talento, o legado, as comunidades e o entorno privilegiado para reconhecer Ubatuba como um pólo de inovação socioecológica ainda não abandonou meus sonhos de futuro. Naturalmente, é necessário pensar sobre como viabilizar isso - para além dos mecanismos do fundamentalismo de mercado que tanto mal têm feito à ciência, à cultura e à educação nos tempos atuais. E infelizmente, não podemos esperar o estado retomar sua capacidade de investimento. A Universidade Federal do Litoral Norte, que em algum momento pareceu possível, já caiu no esquecimento. Nem o Instituto Técnico Federal de Ubatuba, que chegou a ter existência jurídica e disputa de território, teve continuidade.

Cooperando

Pulando rapidamente para outro assunto (pra voltar em seguida), um dos eixos que estou explorando na minha pesquisa de doutorado é o chamado “cooperativismo de plataforma”. Eu já vinha encontrando esse tema aqui e ali, e comecei a guardar artigos e outras referências sobre o tema (links, por exemplo). Há poucos meses, também na esteira da COVID, fiquei sabendo que o Consórcio do Cooperativismo de Plataforma estava oferecendo um curso online emergencial chamado Platform Cooperativism Now! Fiz minha inscrição pensando que seria uma boa maneira de ter acesso a uma lista de leituras com alguma curadoria, e de quebra talvez teria a chance de conhecer pessoas atuando nos meus temas de pesquisa (reuso, consertos e afins).

Isso tudo está de fato acontecendo, e o programa é bem interessante até como metapesquisa - é um curso online com mais de 300 participantes do mundo inteiro, com parcerias regionais e estruturado em forma de incubadora. Mas é justamente aí que eu retorno a esta conversa aqui. As primeiras quatro semanas de curso foram uma espécie de construção de um entendimento comum sobre os imensos problemas do capitalismo de plataforma; a história do cooperativismo e em especial da corporação Mondragon no País Basco; o que vem a ser o cooperativismo de plataforma; e alguns estudos de caso reais. A partir da semana passada - a quinta - e até o final do curso, a intenção é que os participantes desenvolvam seus próprios pilotos de cooperativas de plataforma.

Na etapa que estou do doutorado, não sinto nenhuma vontade de propor uma plataforma para atuar nos meus temas de pesquisa. Nesse recorte o meu tempo é outro, e o caminho vai ser mais longo. Gosto disso. E minha primeira reação ao convite do curso foi colocar-me à disposição de ajudar os projetos de outras pessoas com o que eu pudesse. Entrei nos grupos locais da Alemanha (semana passada) e do Brasil (hoje) principalmente com essa postura. Mas fica aquela inquietação: será que seria o caso de usar a ocasião para construir os alicerces da instituição de ensino e pesquisa de inovação socioambiental que um dia vou fazer em Ubatuba? Será que uma cooperativa de plataforma é o caminho para isso? Eu certamente vejo muita gente no Brasil inteiro desenvolvendo projetos socioambientais extremamente relevantes, quase sempre em escala ultralocal. Encontrar maneiras de aproximar essas pessoas faz sentido? Trago alguns elementos aqui.

Eu tendo a desconfiar dos mitos de fundação do que quer que seja. Muitas vezes são narrativas ficcionais que foram moldadas ao longo dos anos para conformar-se aos tempos. Ressalva feita, gostaria de acreditar que parte da história inicial da corporação Mondragon tem uma boa parcela de verdade. Contam que, em meio à guerra civil espanhola, um padre dedicou boa parte de sua vida a construir alternativas de desenvolvimento baseadas em princípios de cooperação. Ao longo das décadas, a Mondragon tornou-se o quinto maior grupo empresarial da Espanha, e isso tudo não me interessa tanto assim. O que me pegou na história foi saber que antes de qualquer um dos empreendimentos, existia uma escola profissionalizante. Que tudo teria começado com uma escola. E dela saíram cooperativas industriais, e depois de previdência, crédito e tantas outras.

É claro que uma escola não pode existir no vácuo. Ela precisa ter gente disposta a aprender, e um cenário que posteriormente absorva a mão de obra formada. E é nisso que me parece importante pensar para Ubatuba. A primeira pergunta é: que tipo de atuação precisamos exercitar com educação profissional e superior para que a própria cidade consiga construir futuros sustentáveis e inclusivos? A segunda pergunta é: como vamos pagar por essa educação? Alguém perguntaria: haveria estudantes para uma proposta de ensino voltado a inovação socioecológica? Falando somente da juventude que eu conheci em Ubatuba, eu garanto que sim. Caso contrário, tenho certeza que estudantes de outras partes também se interessariam. Desde que o modelo econômico se resolva. Esse tipo de educação altamente idealista não pode depender da capacidade das famílias pagarem por matrículas, mensalidades e material. Esse me parece ser o maior desafio.

Para variar, esse texto ficou longo. Mas faz sentido? Ainda não consegui decidir se vou levar essa intenção para dentro do curso de cooperativismo de plataforma (uma vez que minha capacidade de me dedicar a um projeto desses será bastante restrita nos próximos dois anos). Mas eu precisava no mínimo organizar as ideias. E relendo agora, talvez eu aproveite a ocasião para desenvolver duas iniciativas mais simples: publicar o conteúdo do curso de inovação cidadã originalmente produzido para a equipe da Secretaria Municipal de Cultura de Santo André; e pensar em um fundo multistakeholder internacional para financiamento de projetos socioambientais. Ih, mais um projeto. E lá vamos nós. #nos.

Repito aqui: clique em “responder” abaixo pra continuar essa conversa. Preciso muito saber se alguma dessas coisas faz sentido e reverbera.

Esta conversa tem alguma relação com uma resposta minha ao tópico Nossas buscas, mas resolvi trazer aqui para dentro do contexto da programação distribuída e assíncrona #nos como uma das minhas inquietações deste momento.

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Muito legal! Falei agora com o Danilo Santos convidando ele para conhecer a plataforma aqui e contribuir. Efe, precisamos sim construir plataformas de educação direcionadas!! Vamos nessa!!

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Li, me emocionei. Estou ainda em processo de digestão deste banquete de boas intenções!
Mas… já posso deixar registrada a intenção de contribuir.
Valeu Fê!

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Fez sentido total! Aliás a escola e o ensino está primeiro em tudo, inclusive até no próprio curso de cooperativismo oferecido pela Mondragon e The News School, uma prazer ter você lá no grupo só vai somar mesmo!

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Efefe,
Sincronizando todo seu texto sobre a Experiência de Ubatuba com toda trajetória do Bailux em Arraial d’Ajuda e mais recentemente a formalização de uma Associação Socioambiental com a missão de um laboratório em educação inovadora como projeto de ocupação de uma área verde em grande parque no centro da cidade e como uma artéria ligando todas as comunidades do entorno no centro histórico do Arraial d’Ajuda. Quero muito acompanhar está pesquisas das plataformas colaborativas. Vamo q Vamos! !!!

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Felipe, mesmo com os contratempos políticos deste país, eu tbm teimo em sonhar na construção de coisas aqui em Ubatuba…e não estamos sozinhos: tá cheio de gente aproveitando pequenos momentos (que tbm existem) para construir algo maior. O cenário todo o mundo conhece e sabe que é extremamente adverso. No entanto, nenhuma democracia, ou aprofundamento democrático, é construída sem lavação de roupa suja histórica…e penso que estamos exatamente neste momento. A própria Escócia passou maus bocados até que os escoceses pudessem sentar e tomar seu café da manhã e seu uísque sossegados.

P.S.: eu ainda hei de participar de um bar virtual no sábado.

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Tentando deixar um pouco mais claras as minhas intenções:

Opa Efeefe,
Buscando conversar mais por aqui. Estudando seu tutorial de como usar este site. Vi o seu vídeo sobre Educação para inovação Socioambiental e te ouvindo vejo muita simetria nas ideias por aqui com a Estação Bailux-UFSB-Associação Verdejar d’Ajuda. Poderíamos criar um ambiente aqui dentro desta plataforma e colocar Ubatuba e Arraial para conversar. Que acha? Abraço e até amanhã no Boteco (:

Como um dos orgulhosos progenitores do Ce-pisa, evidentemente continuo achando que a criança, apesar de estar em gestação pausada, continua viva. Eu participei de muitas das discussões mencionadas e neste momento essa abordagem é mais necessária que antes, devido à destruição programada e planejada da educação, dos sistemas de proteção ambiental e da economia produtiva no país.
Não planejada, mas igualmente importante, o impacto da pandemia sobre a atividade turística convencional (turismo de hospedagem em estabelecimento hoteleiro + consumo em bares e restaurantes) ainda não foi medido, mas parece claro que o setor vai continuar em crise por muitos anos. Meu temor especulativo é que o capital se reorientar para a expansão de modelos já em crescimento (aluguel temporário via plataformas online como AB&B e Booking e refeições a domicílio). O impacto negativo de ambas modalidades vai desde a expansão imobiliária, aumentando a pressão sobre o território, o aumento do preço da moradia para residência, problemas de mobilidade, o aumento da já notória precariedade nas relações trabalhistas, entre outros.
Ao mesmo tempo, considero que as “soluções” ao quadro de falência generalizada do que restava de capitalismo social- democrático, seja onde existia ou seja no Brasil, onde fez uma tardia e modesta aparição no período 2003-2014, serão múltiplas e de raiz local e regional.
Então, sim, tô dentro.

Suzana,
Prazer em conhecer, estamos aqui no Sul da Bahia no marco 0 da invasão transnacional que continua até hoje com a CVC. Acabei de fazer um retorno para o Efeefe do desejo de colocar A comunidade de Ubatuba para conversar com Arraial d’Ajuda. Vamos?

Olá Juan,
Estamos vivendo a mesma realidade de Ubatuba aqui no Arraial d’Ajuda-Bahia. A novidade é a empresa transnacional OYO comprando toda rede hoteleira endividada. Gostaria de continuar suas reflexões e dilogar aqui na nossa comunidade. Abraço